Quase no encerramento do ano de 2025, a diocese de Lages viveu uma ocasião marcante de sua história: a ordenação de um bispo em sua catedral diocesana. Ela ficou pequena diante da multidão que acorreu a participar do singular evento. A escolha não foi casual, pois é carregado de significados que a ordenação e posse de um bispo diocesano aconteça na própria Igreja Catedral. Nela, como diz seu próprio nome, está a cátedra, a cadeira de onde o bispo congrega o clero e os fiéis, e realiza sua missão de ensinar a fé apostólica e anunciar o Evangelho. A catedral é a Igreja mãe da diocese e deve ser um sinal de unidade e comunhão de todos, pois “onde está o bispo (com seu clero e povo), está a Igreja” (s. Inácio de Antioquia, séc. II).
O Povo de Deus é um povo consagrado ao Senhor, uma nação santa, um povo sacerdotal, desde seu batismo. Mas alguns são escolhidos para assumirem funções em serviço desse mesmo povo. Basta recordar os levitas, uma das tribos de Israel, que ficou dedicada exclusivamente ao serviço da religião, ou os sete homens que foram designados para o cuidado assistencial (At 6,1s). Hoje, homens e mulheres se encarregam e até totalmente se consagram para servir nas comunidades. Dentre tantos ministérios, alguns são instituídos por meio do sacramento da Ordem, isto é, diáconos, padres e bispos, pois possuem especial missão de de santificar (presidir as celebrações, conferir os sacramentos), de ensinar (anúncio do Evangelho, da doutrina, da moral, da espiritualidade) e de pastorear (organização do povo, instituição de serviços e ministérios, administração dos bens materiais, culturais, espirituais da Igreja). Os bispos recebem a “plenitude do sacramento da Ordem” para serem “transmissores da semente apostólica” (CIC 1555).
A “sucessão apostólica” exprime uma ininterrupta fidelidade ao ensinamento de Jesus que foi entregue especialmente aos doze, e esses aos seus sucessores que, na Igreja, são os bispos. A Igreja nascente, herdeira e continuadora da missão de Jesus, perseverava no ensino dos apóstolos, na oração, na fração do pão (expressão que designa a Eucaristia), e na caridade (At 2,42). Assim, a nota “apostólica” da Igreja significa, entre outras coisas, que guardamos a fé dos apóstolos. Esse carisma de fidelidade, e ainda para manifestar a dimensão de colegialidade dos bispos unidos ao papa, a ordenação de um bispo é feita por diversos bispos (ao menos três). No dia 27 de dezembro, para a ordenação do novo bispo diocesano de Lages, no dia litúrgico do apóstolo e evangelista de S. João, estavam presentes em nossa catedral 18 bispos (os de SC vieram todos), manifestando uma bela unidade e comunhão da Igreja em nosso Regional.
Gestos e símbolos exprimem o dom do bispo na diocese. Ele é ungido com óleo na cabeça, bem como ela é coberta pela Bíblia aberta durante a oração consecratória, a fim de suplicar a Deus que Sua Sabedoria, especialmente contida na Palavra, seja guia das decisões e ensino do bispo. A mitra, chapéu pontiagudo de duas abas, representa a santidade que vem do alto a qual o bispo deve viver e ensinar; o anel representa fidelidade do pastor a Deus, à fé, e ao seu povo; o báculo (um cajado de pastor), recorda sua missão de proteger e guiar o povo de Deus nos caminhos da história. Enfim, o bispo é um homem tirado do meio do povo para o serviço do povo, colocado entre ele, para junto com ele caminhar na história até o Reino definitivo.
Rendemos graças a Deus que não deixa seu povo como “ovelhas sem pastor”, mas que escolhe e envia pastores que o conduzam, cuidem, governem, sirvam com misericórdia, compaixão, sustentem com firmeza na fé.
DOM GILSON MEURER