
«Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Eu não a dou como dá o mundo» (Jo 14,27). A paz, em grego eirene (Irene e Irineu são nomes que significam paz…), Jesus deixou/deu aos apóstolos na última ceia, antes de ser preso e condenado, no longo discurso que S. João nos transmite nos capítulos 13-17.
Podemos imaginar quão tensa era aquela ceia, a angústia que invadia os corações de Jesus e dos apóstolos (em agonia no Getsêmani, Jesus irá suar gotas de sangue, cf. Lc 22,44). E, no entanto, o próprio senhor, «sabendo que chegara sua hora de passar desse mundo para o Pai» (Jo 13,1), consola seus seguidores mais próximos com a paz. Que paz será essa que vence até o terror da morte?
Nos versículos que antecedem essa palavra consoladora, Jesus apresenta o Espírito Santo Paráclito, o advogado defensor (do latim «ad-vocatus», chamado a estar junto, é a tradução literal do grego pará-cletos). Eis aqui o primeiro motivo de uma Paz que somente Jesus pode nos dar: não estamos sós, temos o Espírito de Jesus conosco. «Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um outro Paráclito, para que permaneça sempre convosco» (Jo 14,16). «Outro» porque nosso primeiro «advogado e defensor» foi o próprio Jesus, que veio nos defender do mal e nos acompanhar («Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos», Mt 28,20). Saber que não estamos sós nos consola (consolar, do latim, significa justamente estar «com os sozinhos», «cun solus»). Em tempos difíceis, onde a fé cede lugar ao materialismo, a esperança dá lugar ao desânimo, a caridade perde para o egoísmo, ter a certeza de que Deus caminha conosco, nos sustenta, nos anima, mesmo nos alimenta, isso é muito consolador e traz a paz.
O «Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber» (Jo 14,17), manifesta também a razão de nossa paz: a Verdade se revelou para todos nós. Verdade sob a qual todas as «verdades» (doutrinas, leis, orientações, ciências) encontram sua essência. A Verdade de Deus significa que tudo que sabemos de autêntico, tem Deus na sua origem. A mentira, pelo contrário, tem sua fonte no inimigo de Deus. Em tempos difíceis de mentiras disfarçadas de verdades, de fake-news, de ódio escancarado, precisamos da Verdade para ter paz. «Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo que vos tenho dito» (Jo 14,27). É o Espírito Santo que nos ensinará e recordará a Verdade, que essencialmente é Jesus Cristo, «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). É preciso a Verdade para viver em paz.
A paz, entre as últimas palavras de Jesus aos discípulos antes de morrer, foi a primeira que Ele lhes ofereceu quando voltou ressuscitado: «a paz esteja convosco» (Jo 20,19). Aqui compreendemos que a Paz é uma «vitória»: sobre a morte, sobre o ódio, sobre o pecado. Não se vence ódio com ódio. A paz é fruto da ressurreição, da vida plena, da fé, esperança, caridade que o Senhor semeou entre nós. A paz de Cristo, diferente da que impõe o mundo, marcada pela dominação, pelo medo, pela força, é a paz da fraternidade, da justiça, da alegria. «Misericórdia e fidelidade se encontram, a justiça e paz se beijam», afirma o Sl 85,11 (versão CNBB), eis a força da paz que transforma pessoas e povos.
Na quaresma, em tempos de preparação para a Páscoa, para recebermos a paz que somente Cristo nos dá, abaixem-se as armas da violência, da guerra, para uma paz desarmada e desarmante (papa Leão, em 1o. janeiro, no dia mundial da Paz).
Dom Gilson Meurer