
ICONOGRAFIA é uma palavra que tem origem grega, sendo formada pela junção de “eikon” (que significa “imagem” ou “retrato”) e “graphein” (que significa “escrever” ou “descrever”). Assim, ICONOGRAFIA significa a “escrita ou descrição através de imagens”.
Quando a maior parte do povo ainda era analfabeto ou tinha pouca capacidade de leitura, e menos ainda, de entender textos mais difíceis de interpretação, muitas culturas, usavam a ICONOGRAFIA, quase como um “livro” feito por imagens, não somente imagem no sentido de estátua, mas especialmente como pinturas em óleo ou afrescos, em vitrais, paredes ou tetos, especialmente em templos religiosos, mosteiros, castelos e palácios.
Podemos então dizer que ICONOGRAFIA RELIGIOSA CRISTÃ, é como uma “Bíblia” ou “Catecismo” não escritos em livros, para comunicar e ensinar as principais verdades da Revelação de Deus no Antigo Testamento, do Evangelho e da Doutrina Cristã.
Todos os que não sabiam ler textos escritos em palavras, chegavam ao conhecimento das verdades da fé e da revelação divina, pela iconografia.
Até hoje, quem visita as antigas basílicas, catedrais ou castelos passa horas e horas quase em êxtase diante de pinturas, imagens, afrescos e quadros e compreende tudo o que se revela nessa linguagem simbólica que muitas vezes revela muito mais que o uso da linguagem escrita em “letras” dos diversos alfabetos. Eu, por exemplo, posso ir à China, ao Japão ou a Israel, Egito, Grécia, Iraque e não conhecer nenhuma letra ou palavra de seu alfabeto, mas posso “LER” TODA A SUA GRAFIA E ESCRITA EM IMAGENS, PINTURAS, RETRATOS E AFRESCOS.
Fiz toda essa “introdução” para dizer da grande importância e necessidade de REVALORIZAÇÃO dos livros, especialmente infantis, mas não só, que usam imagens, desenhos, quadrinhos, e de nossas igrejas/templos, deixarem de ser tão frias, sem pinturas, quadros, gráficos, vitrais, cenas sagradas. A boa ICONOGRAFIA, não precisa de texto explicativo porque fala muito mais que palavras possam expressar.
Um grande exemplo, para nós cristãos católicos, aconteceu ONTEM nas ornamentações das ruas de nossas cidades com tapetes coloridos, por onde as procissões deviam passar. Aqui em Caruari, AM, não só as crianças, mas jovens, adultos e pessoas idosas, ficavam parados, olhando, admirando e até rezando ao longo do dia, diante da beleza dos quadros e imagens sagradas feitas por hábeis mãos dos jovens, adolescentes, crianças e alguns adultos. Vi muitos pais/mães ou avôs/avós que ao longo do dia, desde às seis horas da manhã trazerem crianças para olhar e explicar ou responder às curiosidades dos pequenos, por vezes com perguntas complicadas de responder.
Assim como em muitos outros momentos e celebrações religiosas de nossa Igreja, a ICONOGRAFIA de Corpus Christi no chão de nossas ruas, fala muito mais forte que belíssimos “sermões” falados e explicados em detalhes teológicos teóricos.
Perder a LINGUAGEM ICONOGRÁFICA empobreceu muito a nossa catequese, nossas celebrações e nossa liturgia. A transmissão da fé mais do que pela razão, começa ou deveria começar pelo CORAÇÃO. Deveríamos aprender a fazer o caminho do coração para a cabeça e a razão e não da cabeça e da razão para, talvez, chegar ao coração.
Obrigado a todos e todas que EVANGELIZARAM no trabalho iconográfico na ornamentação das ruas. Certamente isto falou mais alto e profundo para muita gente que as palavras de Padres e Bispos nas homilias, sem menosprezar a importância destas últimas. Hoje bem cedo, eu soube, que várias pessoas, chamemos aqui de “EX-CATÓLICAS”, que hoje frequentam por alguma razão alguma outra igreja, vieram ontem na missa e acompanharam toda a processão. Outras pessoas que há muito tempo não frequentavam a igreja dominicalmente também vieram rezar e participar. Não façamos julgamento e nem perguntemos a razão porque saíram, porque vieram ontem e se um dia retornarão. Corpus Christi tem ainda uma “força mística” que fala ao coração, mais que à razão.
Deus abençoe a todos.
+ Guilherme Antonio Werlang – msf
Bispo Emérito de Lages