
“Todas as coisas de que falo estão na cidade, entre o céu e a terra. São todas elas coisas perecíveis como teu riso, a palavra solidária, minha mão aberta ou este esquecido cheiro de cabelo que volta e acende sua flama inesperada no coração de maio. Todas as coisas de que falo são de carne como o verão e o salário. Mortalmente inseridas no tempo, estão dispersas como o ar no mercado, nas oficinas, nas ruas, nos hotéis de viagem. São coisas, todas elas, cotidianas, como bocas e mãos, sonhos, greves, denúncias, acidentes de trabalho e do amor. Coisas, de que falam os jornais, às vezes tão rudes, às vezes tão escuras, que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade. Mas é nelas que te vejo pulsando mundo novo, ainda em estado de soluços e esperança”.(Ferreira Gullar. Coisas da Terra, 1975)
A participação de mais de 20 mil pessoas, nos dias 23 a 25 de junho, em Florianópolis, consolidou o Summit Cidades como o maior evento de cidades do Brasil, reunindo gestores públicos, especialistas em diferentes áreas, lideranças políticas, pesquisadores, representantes da iniciativa privada e profissionais comprometidos com práticas inovadoras para o desenvolvimento dos municípios.
Convidado, desde a segunda edição, em 2023, tenho a grata satisfação de acompanhar o crescimento dos espaços de discussão e do interesse dos demais participantes com o fortalecimento das políticas públicas como condição para que nossas cidades sejam territórios de humanização e inclusão.
Aliás, quando pensamos as cidades, temos presente que além do espaço urbano (geográfico), trata-se de um território existencial. Cidades são lugares de encontros e desencontros, relações e re-criações, convivências e sobre-vivências, “entre o céu e a terra” como poetizou Ferreira Gullar há mais de 50 anos.
Nas origens da palavra, cidade (“pólis”) é o lugar do exercício da política, o nascedouro da democracia. No espaço da cidade (“civitas”) a humanidade assumiu o protagonismo da construção do poder civil, rompendo a subserviência às hierarquias celestes e militares. Mesmo que as palavras sejam sempre polissêmicas e as narrativas nunca serão suficientes para explicar “as coisas da cidade”, reafirmamos nosso compromisso de seguir tecendo os diversos fios da complexidade das cidades, honrando a memória de Edgar Morin, mestre no ensino da condição humana, falecido em 29 de maio de 2026, aos 104 anos, reconhecido pelo sociólogo AlainTouraine como “cidadão planetário”.

Na construção das cidades e da cidadania, sempre houveram muitas mãos e muitos fios. A dinâmica das cidades inovadoras depende das redes, das tecnologias, da conectividade. Ouso perguntar: A hiper conexão está dando conta de restaurar o tecido social das cidades ou precisamos juntar outros fios e mãos nessa tessitura? Depois de ter compartilhado, na edição de 2023 e 2024, o projeto Ciranda de Paz para a superação das violências escolares em Bocaina do Sul e, em 2025, o projeto de Círculos de Diálogo e Construção de Paz para a superação da violência política, neste ano decidi fazer uma apresentação mais reflexiva sobre a Cultura de Paz e sua incidência nas Políticas Públicas, sem descuidar-me das práticas restaurativas em diferentes contextos que sigo acompanhando.
Em um mundo dilacerado pela guerra, a paz reivindica, cada vez mais, o estatuto de direito humano. Ao longo da história, construiu-se um sentido e um símbolo pretensamente hegemônico para dizer paz. A paz entendida como “paz de espírito”, estágio superior de harmonia, descanso, sossego, passividade… A paz como ausência de preocupação, de conflito. “Se queres a paz, prepara-te para a guerra” é uma antiga expressão, ainda hoje muito replicada, que apresenta a paz como um intervalo entre uma guerra e outra; uma paz que precisa ser defendida e mantida, se necessário, com a força das armas. Os defensores dessa paz construíram um símbolo: a bandeira branca. Esta é a bandeira usada para sinalizar o fim de uma guerra e a rendição das vítimas. É a bandeira dos vencidos, dos que restaram junto aos escombros da guerra, é a bandeira das vidas silenciadas. Este jeito de pensar e viver a paz, ainda muito comum em nossos discursos e práticas, continua sendo usado para a justificação da guerra (“guerra justa”), a naturalização da barbárie, a normalização dos colonialismos e imperialismos, a banalização de muitas formas de violência e morte das populações fragilizadas. Esta é a paz da necro-política, como projeto sistemático e cruel que insiste em criar zonas de sacrifício em nossas cidades para eliminar vidas matáveis.
Na tradição dos povos originários do altiplano andino, particularmente entre os Quéchua e Aymara, encontramos uma outra bandeira para simbolizar a paz. Trata-se da Whipala, uma bandeira tecida com 49 pequenos quadrados, dispostos em diagonal e multicoloridos, formando um todo harmônico porque diverso. É a paz da igualdade na diferença, da convivência respeitosa com todas as formas de ser e de viver, incluindo para além da vida humana, todas as manifestações de vida chamadas ao bem viver. Nesta bandeira da paz, não há vencedores e vencidos, pois ela ainda permanece presente nas lutas de re-existência indígena na Afro-Ameríndia e, em outras regiões do mundo, nos grupos e movimentos pelo respeito às diversidades étnicas e de gênero, pela resolução não-violenta dos conflitos e pela construção de uma cultura de paz. Essa é a paz que nos tira do sossego, todos os dias. A paz que não nos deixa em paz.
Não faz muito tempo que a Organização Mundial de Saúde (OMS), conceituou saúde como estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a mera ausência de doença ou enfermidade. As políticas públicas de saúde nasceram para concretizar esse conceito. Seguindo essa lógica, proponho que iniciemos a construção de um sonho: A paz como direito humano e não a mera ausência de guerra. Na verdade, esse sonho é tão antigo quanto à humanidade e floresceu em algumas regiões da África na expressão “cultura de paz”. Na convocação para o Decênio pela Construção da Cultura de Paz e Não-Violência (2000-2010), a UNESCO passou a nomear Cultura de Paz como um “conjunto de valores, atitudes e comportamentos que refletem e inspiram o compartilhamento e a interação social com base nos princípios de liberdade, justiça e democracia”.
Assim sendo, paz não é somente uma ideia, um conceito, um sentimento, um valor, uma doutrina ou filosofia de vida… Trata-se de uma cultura, um jeito de estar e agir no mundo… Lembrando, com o coração agradecido, das palavras do papa Francisco: “A paz é uma flor frágil”: precisa ser sempre cuidada, cultivada… “A paz é artesanal”: trabalho simples, genuíno e cotidiano de nossas mãos “desarmadas e desarmadoras, humildes e persistentes”, completou recentemente Leão 14.
A própria UNESCO, na véspera do segundo milênio, convocou vários prêmios Nobel da Paz para que elaborassem conjuntamente um Manifesto com os fundamentos da Cultura de Paz e Não Violência. Eles permanecem ainda muito atuais e necessários:
- Respeitar e promover a dignidade da vida em todas as suas manifestações, sem discriminação nem preconceito;
- Praticar a Não-Violência ativa e rejeitar todas as formas de violência (física, sexual, psicológica, econômica, social, política e cultural) especialmente em relação às populações vulnerabilizadas;
- Ser generoso e compartilhar tempo e recursos materiais para eliminar a exclusão, a injustiça, a opressão política e econômica;
- Ouvir para compreender, defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, priorizando a escuta e o diálogo;
- Cuidar da vida do planeta, promovendo o consumo responsável e um modelo de desenvolvimento ético que supere as desigualdades e considere o justo equilíbrio na convivência com todas as formas de vida;
- Fortalecer os vínculos comunitários, propiciando a plena participação das mulheres, defendendo a democracia, a fim de criar juntos novas formas de
O Summit Cidades 2026, desafiou-nos a perguntar sobre o futuro das cidades brasileiras. Nesta edição, além do número surpreendente de participantes ao longo dos três dias de evento, surpreendeu-me a diversidade das apresentações. Mais uma vez, as políticas públicas protagonizaram o ineditismo de debates que não são novos, mas que também não estão na agenda de muitos quando buscam soluções inovadoras para a gestão das cidades. Desde às questões inerentes ao direito à cidade assegurado para todas as pessoas, até as pesquisas arqueológicas sobre as cidades subterrâneas na serra catarinense, o que vimos, ouvimos e compartilhamos desafiou-nos a seguir esperançando um amanhecer feliz para o futuro das cidades. A ponte Hercílio Luz, centenária nos primeiros dias do mês de junho de 2026, permanece como símbolo de nossas travessias na construção de uma cidade pacífica e cidadã, de uma cidadania planetária: um mundo onde caibam todos os mundos!
Padre Roberto Moreira